Estudioso das relações familiares, o
psicanalista belga Jean-Pierre Lebrun diz que aprender a lidar com o insucesso
é fundamental para livrar-se de apuros na vida adulta.
A
idéia dos pais como senhores do destino dos filhos vem desabando
progressivamente, no ritmo das transformações sociais. “O que vale é a
capacidade dos pais de fazer os filhos crescerem. Esse é o bom ambiente
familiar, independentemente do desenho que a família tenha”.
Por
que os pais têm tanta dificuldade de controlar seus filhos?
Isso é reflexo da perda de legitimidade. Até
pouco tempo atrás, a sociedade era hierarquizada, de forma que havia sempre um
único lugar de destaque. Ele poderia ser ocupado por Deus, ou pelo papa, ou
pelo pai, ou pelo chefe. Isso foi se desfazendo progressivamente, e o processo
se acentuou nos últimos trinta anos. Hoje a organização social não está mais
constituída como pirâmide, mas como rede. E na rede não existe mais esse lugar
diferente, que era reconhecido espontaneamente como tal e que conferia
autoridade aos pais. As dificuldades para impor limites se acentuaram, causando
grande apreensão nas pessoas quanto ao futuro de seus filhos.
Existe
uma fórmula para evitar que os filhos sigam por um caminho errado?
É
preciso ensiná-los a falhar. Uma coisa certa na vida é que as crianças vão
falhar, não há como ser diferente.
É
inescapável errar. Todo mundo, em algum momento, vai passar por isso. Aprender
a lidar com o fracasso evita que ele se torne algo destrutivo. Hoje os filhos
se tornam um indicador do sucesso dos pais. Isso é perigoso, porque cada um tem
a sua vida. Não é justo que, além de carregarem o peso das próprias
dificuldades, os filhos também tenham de
suportar a angústia de falhar em relação à expectativa depositada neles.
Desde
sempre, quando se levam os filhos pela primeira vez à escola, eles choram. Hoje
em dia, normalmente são os pais que choram. A cena é comum. É como se esses
pais tivessem continuado crianças. Isso acontece porque eles não são capazes de
se apresentar como a geração acima da dos filhos.
Como
o senhor avalia essa mudança? Esse novo arranjo é pior do que o anterior? Hoje
os pais precisam discutir tudo, negociar
o que antes eram ordens definitivas. E isso não é necessariamente algo
negativo, desde que fique claro que, depois de negociar, discutir, trocar
idéias, quem decide são os pais.
Manter
uma criança em satisfação permanente, com sua chupeta na boca o tempo todo,
fazendo por ela tudo o que ela pede, a impede de ser confrontada com a perda da
satisfação completa. E isso vai ser determinante em sua formação. Mas o que
essa perda tem a ver com o fato de as pessoas enveredarem por um caminho
autodestrutivo?
É
uma anomalia no processo de humanização. Não nasçemos humanos, nós nos
tornamos. Isso ocorre quando aprendemos aquilo em que somos singulares entre
todos os animais que habitam o planeta. Somos os únicos capazes de falar.
Aprender
a falar, ou tornar-se humano, é algo que não ocorre espontaneamente. É uma
reação a uma perda do estado permanente de satisfação completa com a qual somos
confrontados na primeira infância. Ou seja, o processo de humanização começa
pelo entendimento de que jamais haverá a satisfação completa. É esse o curso saudável
das coisas. Se os pais boicotam esse processo, podem estar cometendo um erro.
Com
que consequências?
Isso
faz com que estejamos cada vez menos preparados para lidar com o sofrimento da
nossa condição humana. Há séculos que as drogas têm algo de paraíso artificial,
como diz Baudelaire. Ou seja, uma forma de se refugiar da dor humana, da
insatisfação. As drogas sempre serviram para evitar o confronto com esse
sofrimento. Quanto menos você está preparado a suportar as dificuldades, mais
está inclinado a se evadir, a recorrer a substâncias, sejam as drogas ilícitas,
sejam as medicamentosas, para limitar o sofrimento que vai se apresentar.
Quando criança, a pessoa já precisa ser confrontada com a condição humana da
perda de satisfação. Dessa maneira, na idade adulta, sua relação com o fim de
uma paixão amorosa, por exemplo, tem maiores chances de ocorrer de maneira mais
aceitável e menos traumática.
Que
conselho o senhor daria a pais que têm
filhos viciados?
Esse
é o momento em que os pais devem aceitar que algo não funcionou direito em vez
de tratar o problema como se tudo estivesse perdido. Nem sempre está. Não há
dependência química que não seja fruto de uma interação malsucedida entre o
contexto social em que o indivíduo está inserido e o seu trajeto singular desde
a infância. O que vale é a capacidade dos pais de fazer os filhos crescerem. De
incutir-lhes a verdadeira condição humana. Esse é o bom ambiente familiar,
independentemente do desenho que a família tenha.
O
melhor mesmo, então, é aceitar que a existência é sofrida?
O
processo é mesmo muito mais complexo do que ocorre com outros animais. Um cão
nasce cão e será assim para o resto da vida. Um tigre será sempre tigre. Um
humano, no entanto, precisa se tornar plenamente humano. É uma enorme
diferença. Esse processo leva uns vinte, 25 anos e está sujeito a percalços. Na
Renascença já se falava disso: não somos humanos, nós nos tornamos humanos.
Revista - VEJA / 09
dez. 2009
FONTE: CURSO ZÉLIA NASCIMENTO BH\2015
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