sexta-feira, 2 de setembro de 2016

TEMPERANÇA


Ando às voltas com a ideia de temperança, palavrinha simpática que tem a mesma raiz de tempero, sem o qual a vida fica muito sem graça. Mas também não pode ser demais. Deu pra perceber a delicadeza da questão?
O bacalhau vem salgado, põe-se de molho para tirar o sal, depois se acrescenta um pouco de sal de novo, ele fica ótimo, e aí é que está a arte de temperar. Temperam-se também coisas incomíveis como o aço, uma liga de ferro e o vidro. O clima se diz que é temperado quando há nitidez na diferença entre as estações do ano. E de uma pessoa que dá chiliques por qualquer coisa de diz que é destemperada, ou tem mau temperamento.
Mas meu caso é mesmo com a comida, essa experiência diária de prazer e satisfação que também precisa de tempero, não o dos vidrinhos, mas o da consciência. Por exemplo, para comer o suficiente adequado à necessidade do momento.
Comer demais é uma das maiores burrices da vida, além de ser também um desperdício: sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda, prende ou solta o intestino, vira doença. Às vezes é vício – nem existe propriamente fome, mas uma enorme, imensa, incontrolável vontade de comer.
Em busca de iluminação no assunto, leio o capítulo sobre temperança no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes de André Comte-Sponville. Começa bem, dizendo que não se trata de não desfrutar nem de desfrutar o menos possível, já que isso não seria virtude, mas tristeza, não temperança, mas ascetismo, não moderação mas impotência. Trata-se de desfrutar o bastante. Em vez de senhores-escravos, passamos a ser amigos das nossas dores e dos nossos prazeres. E quem desfruta com liberdade também degusta a própria liberdade, ao passo que o intemperante é senhor escravo de seus desejos, hábitos, de sua força e de sua fraqueza.
Ser temperante é poder contentar-se com o bastante. Mas não é o pouco que importa: é o poder, do contentamento com o suficiente. “A calma para não deixar o gosto cair no desgosto”.
Aprendo que o insaciável não é o corpo. A falta de limites nos desejos é que nos condena à insatisfação, à falta, à infelicidade, como uma doença da imaginação.
Fica então a proposta de estabelecer conexões: dieta e liberdade, bons hábitos e prazeres, o útil e o agradável. Limites para tudo quanto mais desejo. “Uma vez que se trata de escolher, procure opções que lhe permita depois, o maior número possível de outras opções. Escolha o que o abre: para outros, para novas experiências, para diversas alegrias. Evite o que o feche e o enterre”.               
                                                                                                 
  Autora: Beatriz Lobato Araújo                
   Referencia: Sonia Hirsch –

                                                                         Paixão Emagrece, Amor Engorda – Crônicas, receitas e reflexões
CURSO ZÉLIA NASCIMENTO-BH