Ando às voltas com a ideia de temperança, palavrinha
simpática que tem a mesma raiz de tempero, sem o qual a vida fica muito sem
graça. Mas também não pode ser demais. Deu pra perceber a delicadeza da
questão?
O bacalhau vem salgado, põe-se de molho para tirar o sal,
depois se acrescenta um pouco de sal de novo, ele fica ótimo, e aí é que está a
arte de temperar. Temperam-se também coisas incomíveis como o aço, uma liga de
ferro e o vidro. O clima se diz que é temperado quando há nitidez na diferença
entre as estações do ano. E de uma pessoa que dá chiliques por qualquer coisa
de diz que é destemperada, ou tem mau temperamento.
Mas meu caso é mesmo com a comida, essa experiência diária de
prazer e satisfação que também precisa de tempero, não o dos vidrinhos, mas o
da consciência. Por exemplo, para comer o suficiente adequado à necessidade do
momento.
Comer demais é uma das maiores burrices da vida, além de ser
também um desperdício: sobrecarrega a digestão, entorpece a mente, engorda,
prende ou solta o intestino, vira doença. Às vezes é vício – nem existe
propriamente fome, mas uma enorme, imensa, incontrolável vontade de comer.
Em busca de iluminação no assunto, leio o capítulo sobre
temperança no Pequeno Tratado das Grandes Virtudes de André Comte-Sponville.
Começa bem, dizendo que não se trata de não desfrutar nem de desfrutar o menos
possível, já que isso não seria virtude, mas tristeza, não temperança, mas
ascetismo, não moderação mas impotência. Trata-se de desfrutar o bastante. Em
vez de senhores-escravos, passamos a ser amigos das nossas dores e dos nossos
prazeres. E quem desfruta com liberdade também degusta a própria liberdade, ao
passo que o intemperante é senhor escravo de seus desejos, hábitos, de sua
força e de sua fraqueza.
Ser temperante é poder contentar-se com o bastante. Mas não é
o pouco que importa: é o poder, do contentamento com o suficiente. “A calma
para não deixar o gosto cair no desgosto”.
Aprendo que o insaciável não é o corpo. A falta de limites nos
desejos é que nos condena à insatisfação, à falta, à infelicidade, como uma
doença da imaginação.
Fica então a proposta
de estabelecer conexões: dieta e liberdade, bons hábitos e prazeres, o útil e o
agradável. Limites para tudo quanto mais desejo. “Uma vez que se trata de
escolher, procure opções que lhe permita depois, o maior número possível de
outras opções. Escolha o que o abre: para outros, para novas experiências, para
diversas alegrias. Evite o que o feche e o enterre”.
Autora: Beatriz Lobato Araújo
Referencia:
Sonia Hirsch –
Paixão Emagrece, Amor Engorda –
Crônicas, receitas e reflexões
CURSO ZÉLIA NASCIMENTO-BH