quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sobre o processo de psicoterapia e a fábula da xícara chinesa:

Diz a fábula que o mestre e seu discípulo estavam caminhando. O mestre aproveitava a oportunidade e tentava passar alguns ensinamentos ao discípulo. Numa determinada etapa da conversa o discípulo estava encontrando dificuldades em assimilar o que o mestre estava tentando lhe passar. Então o mestre sugeriu que eles voltassem ao templo, pois ele queria tomar chá.

Chegando ao templo o mestre solicitou ao discípulo que preparasse um bule de chá. O discípulo, prestativo, foi preparar o chá. Voltou com o chá pronto, no bule, e as xícaras. Imediatamente serviu o mestre... Para surpresa do discípulo, quando este estava para encher a sua própria xícara, o mestre solicitou que ele voltasse e colocasse mais chá na xícara do mestre. Ao que o discípulo arguiu: - "Mas a sua xícara já está cheia!" O mestre, impávido, confirma: - "Por favor, coloque mais chá em minha xícara!" Nova argumentação do discípulo, nova confirmação do mestre. O chá começa a transbordar para a bandeja, e o discípulo para... O mestre insiste em sua solicitação: Que quer que ele continue a colocar chá em sua xícara. O chá escorre pela bandeja e, desta, ao chão. O bule fica vazio.

O mestre, então, indaga o discípulo: - "O que você aprendeu com isto?" O discípulo diz que nada, pois ele já sabia que o chá iria escorrer para a bandeja e para o chão.

O mestre retruca: - "O ensinamento que isto nos traz é que para caber mais chá na xícara, a xícara precisa estar um pouco vazia. Em xícara cheia não cabe mais chá." E continuou: - "Assim também somos nós!" E complementou: - "Assim é a nossa cabeça. Quando achamos que sabemos tudo, quando temos muitas certezas, quando a nossa cabeça está totalmente cheia de verdades, então a nossa cabeça não tem espaço para mais nada, novos ensinamentos e percepções não conseguem chegar."

Concluindo: - "É necessário ter permanentemente a nossa cabeça um pouco vazia para poder apreender as mudanças da realidade que nos cerca, sob o risco de nos divorciarmos da realidade."

O discípulo começou a entender. O mestre seguiu: - "As nossas certezas vêm do que vivemos no passado. Mas o passado já passou, e o que acontece hoje não pode ser interpretado à luz do passado. Isso seria o mesmo que caminhar em uma noite escura, para frente, em um caminho desconhecido, com uma vela acesa às nossas costas, iluminado o caminho já percorrido.

E finalizou: - "Relaxe e deixe sempre sua cabeça um pouco vazia para apreender o que o mundo lhe oferta de novidades e oportunidades."

Assim como nesta fábula, no processo terapêutico, o cliente precisa estar aberto para novas formas de pensar, sentir, agir e ver o mundo a sua volta.
Esvaziando-se de algumas crenças, manias, pensamentos caducados que já não fazem sentido na vida atual.
O processo consiste em desfazer de velhas opiniões e aprender a fazer perguntas que movem no aqui e agora, de modo a contribuir para uma vida plena e saudável. “Será que é só assim? Não tem outro jeito?...” (sic)
Ao invés de acrescentar conteúdos a uma “xícara” transbordada, que não conseguirá conter conhecimento, precisamos inicialmente deixar o chá velho correr pelo ralo e permitir que haja espaço vazio para que novos sabores entrem.
Quem busca psicoterapia, aprende que para mudar é necessário perder! Dentre as perdas: “a velha opinião formada sobre tudo”!
É um processo que exige humildade para aprender com a vida, com as pessoas, com as relações, permitindo o aflorar de novas ideias.
Uma cuca fresca para enfrentar os altos e baixos da vida!